Cidade para pessoas

22.06.18

Atualmente mais de 50% da população do mundo vive nas cidades e estima-se que, até 2030, esse número cresça para 60%. Com tanta procura pelas cidades e facilidades que elas oferecem, a pesquisa por um espaço urbano que supra as necessidades humanas é um dos objetivos do planejamento urbano. William White, um estudioso das cidades, acreditava que a maior lição que a cidade pode nos oferecer é a ideia de que estamos todos juntos, para melhor ou para pior, logo temos que fazê-la funcionar. Uma das necessidades essenciais do ser humano é ter vida social, pertencer a um grupo, identificar-se cultural e socialmente com o lugar onde vive.

De uma forma simplista, pode-se dizer que cidades são formadas por edificações e os espaços existentes entre elas. A vida privada ocorre no interior dos prédios e a pública ocorre nos espaços externos. Continuando com essa linha de pensamento, pode-se afirmar que os espaços externos são a sala de estar desta grande casa chamada cidade. Assim, urbanistas, paisagistas e todos aqueles que trabalham estruturando e desenhando as cidades têm a responsabilidade ética de criar espaços para as pessoas. As pessoas têm o direito de se apropriarem desses espaços. E todos juntos têm a obrigação de fazer a cidade funcionar.

Jan Gehl, arquiteto dinamarquês, que há mais de 50 anos foca o seu trabalho na vida social que ocorre no espaço público, e que vem buscando transformar cidades em espaços para as pessoas, diz que: “uma boa cidade é como uma boa festa; quando as pessoas estão se divertindo, elas permanecem mais tempo”. A metodologia aplicada em seu trabalho é baseada nas pessoas e segue a seguinte ordem: vida, espaço público e edificações. As pessoas em primeiro lugar. A base para a criação de uma interação nos espaços públicos é ter pessoas nesses espaços. As pessoas não são o alvo, elas são o meio de fazer funcionar um espaço público. A lógica é simples: “Pessoas atraem pessoas”, ou seja, atrair pessoas e fazê-las permanecer é a chave para a criação de espaços públicos bem-sucedidos.

Tudo que foi escrito acima parece óbvio, mas, quando olhamos para ruas e calçadas, praças e parques, prédios e áreas externas de nossas cidades, percebemos que o óbvio não é compreendido nem aplicado na estruturação e na criação de nossos espaços urbanos. As ruas são apenas para circulação, a mobilidade está comprometida, as calçadas são quase intransitáveis, as praças estão vazias, o privado toma o espaço do público, a arquitetura não interage com o espaço urbano, as pessoas se trancam por trás dos muros, e as ruas ficam entregues aos carros, à violência e ao descaso. E com o passar do tempo nos acostumamos a viver sem espaços públicos de qualidade, onde possamos nos sociabilizar e nos expressar, e o pior, não assumimos a nossa responsabilidade nesse processo de degradação e não criação de espaços públicos voltados para as pessoas, nem como designers, nem como administradores e nem como cidadãos.

Designers podem manipular elementos para criar bons espaços, e bons desenhos podem trazer boas possibilidades para a cidade. Planejar espaços públicos externos significa planejar espaços onde uma infinidade de atividades pode acontecer, atraindo e oferecendo possibilidades para a sociabilização humana. Não apenas atividades como andar, correr, comer, sentar, conversar, brincar, ver e ouvir pessoas, mas toda e qualquer atividade que transforme a cidade em expressão da identidade de seus cidadãos e, consequentemente, em um lugar prazeroso e atrativo. É importante lembrar que   a criação de espaços resilientes, sustentáveis, que respeitem e fortaleçam o ecossistema urbano, são pontos fundamentais para o planejamento e a construção de boas cidades.

A partir do momento em que nós, pessoas, ocuparmos os espaços entre as edificações, as diferenças sociais e a intolerância tenderão a diminuir, afinal viveremos os mesmos espaços, contemplaremos as mesmas belezas e feiuras, ouviremos os mesmos sons, conviveremos com diferenças, exigiremos os mesmos direitos, experimentaremos os mesmos deveres e, no final do dia, perceberemos que somos todos iguais.

 

 

 

Patrícia Paegle

Arquiteta Paisagista e sócia da empresa Casa Forte Arquitetura Paisagística

 

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