Como a arquitetura paisagística pode impactar a vida das pessoas

08.06.18

foto: Nelson Kon

O entendimento do que é a Arquitetura Paisagística requer inicialmente a definição do termo paisagismo.

E paisagismo (ou arquitetura da paisagem), defendido pela American Society of Landscape Architects, e aceito no meio acadêmico, consiste num “processo consciente de manejo, planejamento e recriação física da paisagem e que se utiliza de princípios artísticos e científicos na construção de ambientes e cenários em qualquer escala de atuação”.

A disciplina de paisagismo, no Brasil, foi introduzida na grade curricular do curso de Arquitetura e Urbanismo na década de 1950, na FAU-USP, de modo a trazer conhecimentos específicos para contribuir com o Urbanismo.

A edição da Lei nº 12.378/2010, que criou o Conselho de Arquitetura e Urbanismo, regulamentando o exercício da Arquitetura e do Urbanismo, no parágrafo único, do art. 2º, inciso III, determina a atuação, também, da Arquitetura Paisagística:

Dispõe o artigo 2º, parágrafo único, inciso III, que:

Art. 2o As atividades e atribuições do arquiteto e urbanista consistem em:

(…)

Parágrafo único.  As atividades de que trata este artigo aplicam-se aos seguintes campos de atuação no setor:

(…)

III – da Arquitetura Paisagística, concepção e execução de projetos para espaços externos, livres e abertos, privados ou públicos, como parques e praças, considerados isoladamente ou em sistemas, dentro de várias escalas, inclusive a territorial;

Por vezes, temos nos deparado no escritório com situações inusitadas, decorrentes do que acontece no “mercado” a respeito do correto entendimento de paisagismo, como definido acima.

Nos são solicitados orçamentos para locais/obras em que apresentam a informação de não precisar de projeto, mas do orçamento das plantas e do material complementar, e “sem necessidade” de visitar, olhar, sentir o lugar. Fazemos compreender que somos uma empresa de projeto e de que somente será possível um orçamento com o projeto específico, com o estudo de todas as variáveis próprias de um projeto de Arquitetura Paisagística.

Planejar e conceber um projeto de paisagismo é algo prazeroso, leva um tempo de amadurecimento, pois não é colocar uma planta por colocar. É preciso saber o porquê, como será usado, o investimento disponível, estudar o melhor design para a introdução dos elementos vegetais e construídos, entre tantas outras estratégias necessárias e possíveis com vistas a tornar o projeto de Arquitetura Paisagística impactante e único para determinado lugar, para as pessoas.

Arquitetura paisagística é a arquitetura do exterior, dos espaços mais visíveis nas edificações e nas ruas. Na cidade do Recife, os muros devem ser vazados em 70% exatamente para permitirem a interação/continuidade do “verde”. Os detalhes e a singularidade nos projetos criam identidade e interesse para os pedestres. Ruas com muros contínuos são típicas de cidades que priorizam o carro.

O paisagismo requer soluções projetuais que contribuam com a qualidade urbana, tornando as ruas confortáveis e convidativas aos pedestres, em que o design inclua elementos vegetais e elementos construídos, lembrando que os primeiros são capazes de estimular os cinco sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar), dentro de uma expressão artística.

Arte e ciência são, portanto, duas vertentes trabalhadas pelo arquiteto paisagista para configurar espaços e demandam o conhecimento de paisagem humanizada (escala urbana, percepção de segurança, forma de ocupação do espaço público, entre outras condicionantes); conforto térmico com a introdução de elementos nos projetos que priorizem a melhoria da temperatura, da radiação solar, as sombras e barreiras antirruídos.

Igualmente no que se refere à infraestrutura dos diversos sistemas nas edificações (drenagem e esgoto, elétrica, hidráulica), tudo inerente às atividades projetuais, de conhecimento durante o curso de Arquitetura e Urbanismo, precisam fazer parte desde o planejamento do projeto de arquitetura, para que sejam inseridos/compatibilizados tecnicamente e reduzam desperdícios de tempo e de materiais na execução da obra.

Aliados a esses aspectos, destacam-se as diversas normas oriundas das esferas federal, estadual e municipal e, em especial, do município do Recife e da Região Metropolitana no que compete ao planejamento e controle urbano, meio ambiente natural, patrimônio histórico-cultural, direito à moradia, entre outras, cabendo ao profissional que desenvolve o projeto de Arquitetura Paisagística, de forma integrada aos demais profissionais desde o início do planejamento e da concepção de um projeto específico, observar e cumprir a legislação, mediante a adoção das melhores estratégias e práticas para aquele projeto.

O trabalho do arquiteto paisagista deve estar sempre transitando da escala micro para a escala macro. Como exemplo dessa afirmação, na cidade do Recife, podemos citar o tratamento paisagístico dos espaços situados no entorno das Unidades de Equilíbrio Ambiental (praças e parques), das novas edificações, quando estiverem nas Faixas de Amenização Ambiental, constantes da Lei municipal nº 18.111/2015.

Objetiva essa legislação integrar o homem ao meio ambiente e ao espaço urbano, ao constituir uma faixa de vegetação entre a calçada e o muro da edificação, possibilitando o caminhar das pessoas em temperatura mais agradável e incluir a drenagem das águas pluviais.

A Lei nº 18.112/2015, também do município do Recife, que obriga a instalação do “telhado verde” nas edificações com mais de quatro pavimentos e não habitacionais com mais de 400 m² de área coberta, refere-se a ”uma camada de vegetação aplicada sobre a cobertura das edificações, como também sobre a cobertura da área de estacionamento e piso de área de lazer, de modo a melhorar o aspecto paisagístico, diminuir a ilha de calor, absorver parte do escoamento superficial e melhorar o microclima local”.

Outras soluções projetuais com tipologias de infraestrutura verde podem ser agregadas aos projetos pela Arquitetura Paisagística, através de jardim de chuva, calçada drenante, biovaleta, jardim vertical, cortina verde, lagoas de infiltração e outras soluções duradouras e de relevantes benefícios para a vida das pessoas nas cidades. Isso porque contribuem na construção de espaços abertos com valores e funções capazes de criarem uma paisagem integradora: homem x natureza.

Ainda enfatizando o que a Arquitetura Paisagística pode impactar, considerando a escala micro, destacam-se as soluções viáveis, como exemplo, da casa de lazer de Glória Kalil, em São Paulo, em um terreno minúsculo e estreito, o design da piscina abriu espaços para a luminosidade necessária ao paisagismo (plantas). Arquitetura e Arquitetura Paisagística foram planejadas e concebidas em conjunto.

Assim, é possível, desde que seja a partir do início do planejamento e da concepção do projeto de arquitetura, encontrar soluções paisagísticas significativas para a paisagem, com estratégias inspiradoras singulares e únicas. Trabalhar com conceitos que traduzam emoção e sensações para os usuários do espaço edificado nas escalas micro e macro.

São essas possibilidades que nos levaram a estudar, trabalhar e criar a Casa Forte Arquitetura Paisagística, com sede próxima da Praça de Casa Forte, tão representativa da obra de Burle Marx.

Queremos, com compromisso e responsabilidade, contribuir com o “verde” e melhor design, incluindo nos nossos projetos paisagísticos não somente a estética, mas principalmente as questões ambientais e de sustentabilidade (social, histórico-cultural e econômica), com conceitos e simbologias próprias.  Fazemos Arquitetura Paisagística para as pessoas e com a paixão de tornar os espaços agradáveis e visualmente impactantes.

 

 

 

Auxiliadora Sá

Arquiteta Paisagista e sócia da empresa Casa Forte Arquitetura Paisagística

 

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