Um jardim de Burle Marx

03.08.18

Trabalhei por um tempo no edifício da antiga Sudene, e havia dias quando chegava para trabalhar que ficava imaginando as marcas e histórias que um prédio velho — para alguns feio — com uma conservação duvidosa, um jardim mal cuidado e que representa o fracasso de medidas políticas para ajudar o Nordeste trazia consigo. Em um desses momentos reflexivos, pensei que lugares diferentes podem carregar uma mesma marca, isso me ocorreu quando lembrei que as calçadas de Copacabana, tão famosas por suas ondas e painéis, e os jardins da Sudene foram projetados por um mesmo homem: Roberto Burle Marx.
Nascido em São Paulo no ano de 1909, viveu a maior parte de sua vida na cidade do Rio de Janeiro. Filho de pai alemão e mãe de origem franco holandesa. Artista talentoso e polivalente, revelou-se como pintor, escultor, músico, porém foi como paisagista que se destacou e se tornou um dos grandes do século XX. Juntamente com Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, construiu o movimento arquitetônico moderno no Brasil. Foi inovador ao utilizar e valorizar em seus jardins a flora brasileira, que curiosamente conheceu quando foi à Alemanha, aos 19 anos, tratar de um problema de saúde. Suas obras estão espalhadas pelo mundo, especialmente no Brasil, onde ajudou a criar alguns dos nossos cartões-postais, como o Aterro do Flamengo (RJ), o Parque do Ibirapuera (SP), o conjunto da Pampulha (BH), os jardins de Brasília e as já mencionadas calçadas de Copacabana, que trazem consigo o mérito de terem sido a primeira obra paisagística aceita em uma bienal de arte, fato ocorrido em Veneza – 1970.
O Recife foi palco de seu trabalho. São mais de 10 praças, entre elas a de Casa Forte e a da República, além dos jardins da Sudene, que já não espelham o projeto original, talvez apenas algumas árvores e traços, porém as marcas deixadas por ele estão além do que os nossos olhos podem enxergar. Ele valorizou a nossa flora, em uma época em que os modelos de beleza eram importados da Europa. Rompeu com padrões antigos e inovou a forma de se desenhar e projetar jardins. É considerado o precursor do paisagismo moderno mundial. Preferia projetar para uma cidade ao invés de projetar para um mundo privado, pois assim todos usufruiriam de espaços verdes tão carentes nas cidades. Reconhecia a importância de se compreender o povo, pois este, segundo ele, traz uma contribuição madura e rica para a arte. Tarsila do Amaral o chamou de “Poeta dos Jardins”, enquanto ele se dizia “poeta da sua própria história”, e fez questão de escrever cada linha.
Sinto-me privilegiada de ter pisado no solo por onde passou esse grande artista, cujo legado deve nos orgulhar. Burle Marx deve ser por nós reconhecido, pois deixou uma marca positiva ao valorizar as coisas da nossa terra, o que consequentemente nos valoriza enquanto povo. Por fim, gosto de pensar que trabalhei em um lugar que foi objeto de sua arte, e que lá ele exercitou ideias que influenciaram e modificaram a paisagem da minha cidade, do meu país e do mundo.

 

 

Patrícia Paegle

Arquiteta Paisagista e sócia do escritório Casa Forte Arquitetura Paisagística

 

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